A chuva começou na madrugada e, quando Beatriz abriu os olhos, já tinha desistido de qualquer plano. O barulho nas telhas fazia o quarto parecer menor, mais quente, como se o mundo lá fora tivesse sido cancelado.
Henrique dormia de lado, com a mão esquecida na curva da cintura dela. Fazia meses que os dois viviam no modo automático: trabalho, contas, séries no sofá, um beijo apressado antes de apagar a luz. Amavam-se, isso nunca esteve em dúvida. Mas o desejo andava guardado numa gaveta que nenhum dos dois lembrava de abrir.
— Bom dia — ele murmurou, sem abrir os olhos.
— Está chovendo.
— Estou ouvindo. — A mão dele subiu um pouco, devagar. — Alguma coisa para fazer hoje?
Beatriz sorriu para o teto.
— Nada.
Ela se levantou, fez café e voltou com duas xícaras. Antes de entrar no quarto, desligou o celular e o deixou na cozinha. Henrique reparou, ergueu uma sobrancelha e, sem dizer nada, fez o mesmo com o dele. Foi um pacto silencioso, e os dois entenderam.
Tomaram o café na cama, entre migalhas de pão e risadas baixas. Aos poucos, as risadas foram ficando mais quietas. Henrique pegou a xícara vazia da mão dela, apoiou na mesa de cabeceira e ficou olhando.
— O que foi?
— Faz tempo que eu não te olho assim. Sem pressa.
Beatriz sentiu o rosto esquentar. Puxou-o pela camiseta e o beijou, e o beijo começou lento, curioso, como o de quem reaprende um caminho conhecido. A chuva engrossou. Nenhum dos dois ouviu.
Ele deslizou os dedos pela lateral do pescoço dela, pelos ombros, pela linha das costelas. Cada lugar que tocava parecia acordar. Beatriz fechou os olhos e deixou que ele ditasse o ritmo, e, quando abriu, viu que Henrique a observava com uma atenção quase solene.
— Me diz o que você quer — ele pediu, perto do ouvido.
— Eu quero que você não tenha pressa.
— Combinado.
Ela se levantou por um instante, abriu a gaveta da mesa de cabeceira e voltou com uma pequena caixa lisa, sem nada escrito. Dentro, a mini varinha que tinha comprado semanas antes e nunca tivera coragem de mostrar. Henrique riu, surpreso, e depois ficou sério de um jeito bom.
— Você andava escondendo isso de mim?
— Eu estava esperando o dia certo.
— E o dia é hoje?
— O dia é hoje.
Ele pegou o brinquedo, testou os modos na palma da própria mão e arqueou as sobrancelhas. Beatriz ria, mas o riso se desmanchou quando ele a deitou de volta nos travesseiros e começou a vibração baixa, encostada de leve na pele do quadril, depois na parte interna da coxa, sempre perto, nunca onde ela esperava.
— Henrique…
— Calma. Domingo é longo.
Ele subiu o ritmo devagar, depois recuou, depois voltou. Observava cada reação dela como quem estuda uma música nova. Quando Beatriz arqueou o corpo, ele pegou o frasco de lubrificante que estava ao lado, espalhou um pouco entre os dedos para aquecer e só então voltou a tocá-la, e a diferença de deslizamento fez a respiração dela falhar.
— Assim?
— Assim… não para.
A chuva batia na janela num compasso quase combinado com o dela. Henrique mantinha o toque firme e constante, e Beatriz se agarrou ao lençol, sem pensar em mais nada além da própria pele. A tensão foi subindo em ondas, cada uma mais alta que a anterior, até que a última a atravessou inteira e a deixou sem fôlego, rindo e ofegante ao mesmo tempo.
Ele desligou o brinquedo e ficou ali, a mão espalmada sobre o abdômen dela, esperando o corpo voltar.
— Minha vez de pedir — disse ela, quando conseguiu falar.
— Pede.
— Fica comigo. O dia todo.
Ele a puxou para junto do peito. Mais tarde haveria outras rodadas, risadas, um almoço improvisado de macarrão com queijo, banho demorado, o sofá. Mas, naquele instante, só existia o cheiro de chuva entrando pela janela entreaberta e a certeza de que o desejo nunca tinha ido embora. Só estava esperando que os dois desacelerassem o suficiente para encontrá-lo.
Quando a noite chegou, ainda chovia. Os celulares continuavam desligados na cozinha.
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Conto de ficção. Todos os personagens são adultos e fictícios, e tudo acontece com consentimento. Higienize os brinquedos antes e depois do uso e interrompa se sentir dor.

